Romanceiro

O projeto de Almeida Garrett para a publicação do Romanceiro passou por várias fases. Basta pensarmos que em 1828, em Adozinda, obra inaugural que dedica a este género poético, começa por publicar concomitantemente romances de recriação ou invenção próprias e respetivas fontes “tradicionais”; mais tarde, em 1843, no livro que reedita Adozinda intitulado Romanceiro e Cancioneiro Geral, oferece tão-só os romances por ele reconstruídos; posteriormente, nos dois volumes de Romanceiro, II e III, de 1851, não publica romances por si reconstruídos ou inventados (a balada romântica), mas dá à estampa uma boa percentagem de textos que, na maior parte dos casos, evidenciam uma relação (mais) estreita e inequívoca com a tradição oral.

No entanto, só em 1851, na “Introdução” ao Romanceiro, II, p. XLV, nos apresenta o poeta um plano editorial para a sua obra romancística. Se, por um lado, este plano, sob a forma de índice, fornece uma perspetiva global sobre o projeto da obra para o futuro, por outro passa revista à fração já publicada. É ele:

Por que motivo Garrett não introduziu este plano editorial no primeiro volume, como seria expectável? A resposta residirá, talvez, no facto de ter amadurecido tardiamente este conceito da obra. O plano gizado retoma, assim, o Livro I, dado à estampa em 1843, embora nessa ocasião assumisse outro título (Romanceiro e Cancioneiro Geral. Adozinda e Outros, recorde-se; na realidade, só a reedição deste volume, de 1853, é acolhida sob o título Romanceiro —o projeto de incluir o cancioneiro abortara, como se pressente—, com o subtítulo proposto então, a saber: Romances da Renascença). Parece evidente, então, que o Romanceiro e Cancioneiro Geral obedecesse a um pressuposto de publicação entretanto gorado e que, por este motivo, o Visconde tivesse sentido necessidade de atualizar o seu projeto neste plano em 1851, incorporando também alterações ao título do Livro I, cuja reedição sairia dois anos depois.

Almeida Garrett não concluiria este plano editorial. Em síntese, ao Livro II, editado em dois volumes em 1851, seguiu-se apenas a reedição do Livro I, em 1853, sob a sua responsabilidade. No ano seguinte viria a falecer o poeta, sem sequer terem restado evidências de que se se encontravam em preparação os Livros III, IV e V.

O inesperado surgimento de um núcleo documental autógrafo garrettiano alterou, já no século XXI, este panorama. A Coleção Futscher Pereira, que foi identificada em 2004 e que atualmente é património do Estado Português, encontrando-se depositada na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, conserva materiais preparatórios manuscritos de Almeida Garrett que permitem aprofundar e esclarecer algumas questões relativas a este seu último plano editorial conhecido. Revela-nos, por exemplo, que os Livros III e IV se encontravam num estádio avançado de elaboração. Permite-nos perceber que, no futuro Livro IV, o livro dedicado aos romances históricos portugueses (secção temática à qual o editor espanhol coevo Agustín Durán já dedicara um estatuto independente), muitos dos romances seriam bebidos, por falta de outras fontes, em obras espanholas ou em espanhol e alvo de uma constante versão para língua portuguesa. Informa-nos também —facto de extrema curiosidade— que os romances que versam temas relacionados com a época da monarquia dual refletem sempre a perspetiva portuguesa. Dá-nos a conhecer, ainda, a existência de uma insólita secção de romances mouriscos que o plano acima exposto não evidenciava e que poderemos somar ao conjunto de temas jocosos e burlescos para uma hipotética incorporação no Livro V. No fundo, esta concepção do Romanceiro de Almeida Garrett observa princípios organizativos temáticos muito próximos daqueles que Agustín Durán pôs em prática no seu Romancero general (1849-1851), obra que Almeida Garrett conhece.